Frustração após eleições pode afetar saúde mental, alerta psiquiatra

Especialista explica quando a tristeza com o resultado das urnas exige atenção e acompanhamento profissional

Por Redação do Portal AZ,

O fim das eleições pode provocar tristeza, frustração e sensação de perda em eleitores que não tiveram suas expectativas atendidas nas urnas. Embora essas reações sejam consideradas naturais, o sofrimento emocional pode exigir acompanhamento profissional quando começa a prejudicar o trabalho, as relações pessoais e as atividades cotidianas.

Foto: ReproduçãoPsiquiatra

O fenômeno, conhecido informalmente como “luto pós-eleitoral”, pode ser mais intenso entre pessoas que associam determinado projeto político a expectativas de mudança ou melhoria de vida. Segundo o psiquiatra Carlos Cais, sócio-fundador da clínica Elibrè, em São Paulo, o grau de identificação com uma candidatura influencia a maneira como cada pessoa reage ao resultado.

A avaliação ocorre após as eleições presidenciais de 2026, marcadas por disputas políticas e divergências entre eleitores. Para o especialista, a análise dos efeitos emocionais deve considerar o sofrimento individual, sem distinção entre posicionamentos partidários.

Pessoas com histórico de ansiedade ou depressão podem apresentar maior vulnerabilidade a situações de frustração intensa. O psiquiatra também aponta que uma identificação excessiva com lideranças ou causas políticas pode dificultar a aceitação de resultados contrários às expectativas.

Quando a tristeza se torna motivo de preocupação

A intensidade do sofrimento e seus efeitos sobre a rotina são os principais sinais de alerta, segundo Cais. Sentir tristeza, irritação ou decepção depois de uma eleição não caracteriza, por si só, um transtorno mental.

A preocupação aumenta quando a pessoa deixa de realizar atividades habituais, se afasta de familiares e amigos, enfrenta conflitos persistentes ou apresenta sofrimento que compromete sua qualidade de vida.

“O critério clínico fundamental para identificar o luto patológico é a disfuncionalidade e a intensidade do sofrimento. Se a pessoa perde a capacidade de trabalhar, isola-se de entes queridos, entra em conflitos destrutivos por divergências ou perde a esperança no futuro, ultrapassamos a fronteira da tristeza saudável e entramos no campo do sofrimento patológico”, afirma o psiquiatra.

Apesar do uso da expressão “luto pós-eleitoral”, ela não corresponde a um diagnóstico psiquiátrico específico. A identificação de um possível transtorno depende de avaliação clínica, que considera a duração dos sintomas, sua intensidade e outros fatores relacionados à saúde mental.

Reações emocionais não seguem uma sequência fixa

O especialista explica que a frustração diante de uma perda significativa pode envolver sentimentos semelhantes aos observados em outros processos de luto.

Entre as reações possíveis estão negação, raiva, tentativas de negociação com a realidade, tristeza e aceitação, descritas pela psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross em seus estudos sobre o luto.

Essas manifestações, entretanto, não constituem etapas obrigatórias nem ocorrem necessariamente nessa ordem. Uma pessoa pode experimentar diferentes sentimentos ao mesmo tempo ou voltar a apresentar emoções que pareciam superadas.

“O luto normal faz parte da vida e precisa ser respeitado como um processo normal de assimilação da realidade”, afirma Cais.

Como lidar com a frustração política

Para o psiquiatra, desenvolver a capacidade de lidar com situações que escapam ao controle individual é importante para preservar o equilíbrio emocional.

A resiliência, nesse caso, está relacionada à possibilidade de enfrentar frustrações sem que elas comprometam de maneira duradoura a saúde mental e a capacidade de manter atividades e relações.

“Construir um psiquismo saudável passa por encarar a nossa impotência diante de fatos que não podemos controlar. A vida exige resiliência para dobrar sem quebrar diante das frustrações da realidade”, afirma.

Quando o sofrimento persiste ou interfere nas atividades cotidianas, a orientação é buscar avaliação de um profissional de saúde mental. Psicoterapia e acompanhamento psiquiátrico podem ser indicados conforme as necessidades de cada pessoa.

O especialista ressalta que a decepção com um resultado eleitoral não deve ser confundida automaticamente com uma condição patológica. A necessidade de tratamento depende das manifestações clínicas e dos prejuízos observados na vida do indivíduo.

Fonte: Portal AZ

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