O Brasil pode obter mais benefícios ambientais e econômicos ao produzir e exportar aço verde, em vez de enviar hidrogênio verde para abastecer a indústria siderúrgica europeia. A conclusão é de um estudo conduzido pela pesquisadora Clara Rabelo Caiafa Pereira, pós-doutoranda na Universidade de Tecnologia de Eindhoven (TU Eindhoven), nos Países Baixos. A análise compara duas possibilidades de cooperação entre os países, previstas em um acordo firmado em 2023 para estabelecer um corredor comercial entre o Porto do Pecém, no Ceará, e o Porto de Roterdã. Os resultados foram apresentados durante a Fapesp Week Países Baixos, realizada em Leiden.
De acordo com a pesquisa, fabricar o aço verde no Ceará pode reduzir em 25% as emissões de gases de efeito estufa ao longo do ciclo de vida do produto, além de diminuir os custos operacionais para a indústria europeia. A alternativa também evita perdas energéticas relacionadas às etapas de conversão, liquefação e transporte marítimo de hidrogênio por longas distâncias. Para Pereira, realizar o processamento industrial no Brasil amplia os benefícios da transição energética, pois a produção siderúrgica exige mais trabalhadores do que a operação isolada de unidades de hidrogênio, favorecendo a criação de empregos qualificados no Nordeste.
O estudo também considera as limitações enfrentadas pelos Países Baixos para manter atividades industriais de alto consumo energético. O país enfrenta restrições territoriais, escassez de mão de obra e congestionamento na rede elétrica. Segundo a pesquisadora, descarbonizar a siderurgia neerlandesa utilizando apenas hidrogênio exigiria cerca de 20% de toda a eletricidade gerada no país em 2024. Ela ressalta, porém, que a expansão dos empreendimentos no Brasil precisa estar acompanhada de planejamento profissional, com programas de qualificação e requalificação alinhados à criação efetiva de vagas. A medida busca evitar que trabalhadores sejam capacitados antes da consolidação da demanda do setor.
A cooperação entre Brasil e Países Baixos também pode envolver a produção de intermediários de ferro de baixa emissão no território brasileiro, o aproveitamento de resíduos de biomassa agrícola e florestal e o intercâmbio de tecnologias para a indústria química e energética. Segundo Eduardo da Rosa Silva, desenvolvedor de negócios da Organização Neerlandesa para Pesquisa Científica Aplicada (TNO), o Brasil reúne vantagens como eletricidade renovável, disponibilidade de biomassa e capacidade acadêmica, enquanto os Países Baixos contam com demanda por produtos sustentáveis, recursos financeiros e experiência em logística. A avaliação é que a integração dessas capacidades pode fortalecer uma cadeia industrial de baixo carbono e ampliar os benefícios econômicos da transição energética para os dois países.